Atendimentos Emergenciais e ‘O sonho do Bob’
Nesta semana, voltamos à aldeia de Biguaçu para buscar duas patudas que mancavam e também o Bob – para uma tosa e um passeio. Sobre as meninas vou contar abaixo, mas o dia do Bob merece ser contado por ele mesmo… Aliás, antes de começarmos qualquer relato, é preciso lembrar que em tempos de frio e chuva surgem surtos de fungo e sarna. Já notamos uma epidemia na casa do Pirata e da Fran e ela não vai demorar para espalhar pela aldeia toda. O apelo é pelos animais: quem tiver condições de doar remédios, mesmo que seja aquele que seu cãozinho/gatinho não usa mais, essa é a hora de ajudar.
Agora, as meninas… Elas foram deitadas no banco do carro com carinhas de partir o coração. Era evidente que sentiam muita dor. A pretinha foi atropelada por um ônibus escolar que entrou na aldeia para buscar as crianças para um passeio e a filhotinha champanhe provavelmente foi vítima de um chute ou coisa do tipo.
Elas negaram tudo o que oferecíamos (com exceção de colo). Negaram até bifinho. “Provavelmente pela dor”, explicou o veterinário. E dor elas tinham motivo de sobra para sentir. Os raio-X revelaram uma fratura abaixo do joelho na pata traseira da pretinha e uma fratura quase na bacia da filhote.
Elas tomaram analgésicos de seringa, porém não podíamos fazer muito além disso, os machucados eram antigos e já estavam cicatrizando sozinhos. A pretinha ficará manca pelo resto da vida. A filhote, pela idade, talvez tenha um pouco mais de sorte.
Quando esperávamos a revelação das radiografias, vi uma das cenas mais comoventes em todo meu tempo de protetora, e vinda de duas cadelinhas que mal se conheciam: a filhote foi praticamente se arrastando pela mesa até onde estava a pretinha, ganhou uma focinhada carinhosa, e enfiou a carinha embaixo da orelha dela, como se estar junto de alguém que entendia sua dor fosse o maior conforto possível. Elas ficaram juntas o resto do dia, cuidando uma da outra.
De partir coração ver tanto amor ser retribuído com chutes de quebrar ossos… Não esquecerei seus olhares melancólicos…
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O Sonho do Bob

Eu estava sozinho, acorrentado no meio da minha própria sujeira (porque ninguém veio recolhê-la, que fique claro) e enchendo a barriga vazia há dias apenas com o cheiro delicioso de carne que saía da janela da casa dos meus tutores. Nem água para beber lembraram em colocar para mim.

Mas por sorte duas amigas minhas chegaram. Elas sempre me abraçam e apertam, não importa o quão sujo eu esteja (sem intenção de estar, claro). Elas sempre mandam trazerem água e sempre me dão ração. Dessa vez fizeram mais do que isso. Dessa vez eu fui passear de carro.

Fiquei todo contente. Pulei no porta-malas e pus as patas da frente no encosto do banco traseiro para ver tudo bem direitinho. Chegando no veterinário, me deram um banho gostoso e quentinho. Foi o primeiro banho da minha vida. Eles passaram uma máquina barulhenta nas minhas costas e de repente eu estava sem aquelas pelancas de nó nos pêlos. Coitados deles, dos que me deram banho, deve ter sido difícil me deixar tão bonito, e apesar de a máquina bater vez ou outra nos meus ossinhos salientes, eu fiquei quietinho, contente com a atenção que estava recebendo.

Banho tomado, pêlo macio, perfume de gente... e gravata. Sim, me colocaram uma gravata no pescoço! Nunca fiquei tão bonito. Quando saí do banho, minhas amigas ficaram encantadas com a minha belezura. Fiz um pouco de festa para elas, mas estava com tanta fome, tanta fome, que logo vi um saco de ração, saí correndo e tentei rasgá-lo. Sei que não foi uma atitude bonita, mas era a primeira vez em dias que eu via comida tão de perto.

Os humanos perceberam meu desespero e me deram a melhor coisa do mundo: carne enlatada altamente calórica. E depois comi quase meio quilo de ração. E bebi um mar inteiro de água. Nunca me sentira tão bem.

Minhas amigas me colocaram de volta no carro e fomos até uma praça cercada para eu dar meu primeiro passeio na vida. Elas ficaram jogando uma bola de borracha para mim, mas eu não sabia o que fazer, nunca tinham me jogado uma bola antes. Confesso que na pracinha eu voltei a sentir fome, já que estava me exercitando muito mais do que o normal da minha corrente, então comi mais carne enlatada.

Voltei para o carro e naquele momento eu era o cachorro mais feliz do mundo, amado, bem cuidado, quentinho e de barriga cheia. Tudo pela primeira vez na vida. Ai que dia, viu! Queria que minha vida fosse um filme, eu ia ficar voltando para esse dia o tempo todo. Vivê-lo e revivê-lo mil vezes, duas mil vezes!

Sei que talvez seja um pouco feio dizer isso, mas eu não queria nunca ter voltado para a minha corrente e minha casa aos pedaços cheia de sujeira. Como eu queria um humano que me amasse como sou, que me levasse para passear em praças, me ensinasse a brincar de bola, me desse comida suficiente para a máquina do tosador não ter mais que bater nos meus ossinhos. Eu realmente queria esse humano, mas não por um dia, por todos. Um cachorro pode sonhar, não pode?
Faça o sonho do Bob se tornar realidade! ADOTE-O!
Contato: (48) 9114-2537/ oba@obafloripa.org
Clique aqui para ver mais fotos.















Minha nossa, muito comovente… Ele é lindo, temos que divulgar!.. Vamos colocar no facebook?
@Anne
Oi, Anne! Lindo mesmo, e super querido. É bem triste ver um cachorro tão carente na situação dele. Eu pessoalmente não tenho Facebook, mas põe sim! Vou por no Orkut
ah, a proposito, amo seu nome! é uma personagem de um dos meus livros