Visitando um Zoológico
Logo que descobri que perto da minha casa havia um zoológico, comecei uma batalha para que me levassem até lá, porque quando se tem nove anos é necessário estar sempre acompanhado de um adulto. Ninguém queria me levar e descobri sozinha, algum tempo mais tarde, o por quê.
Depois de algumas semanas consegui fazer minha primeira visita. Fiquei empolgadíssima com a quantidade de animais reunidos num só lugar. Araras, tucanos, macacos, jabutis, jacaré, leão, onça, cobras, ema, pacas, capivaras, antas, javalis… nossa, era demais!
Foram horas explorando o local, porém dois animais em especial despertaram minha atenção: uma macaco-aranha chamada Margarida e uma onça preta ou pantera negra, como queiram.
Margarida era uma simpatia, apesar da imundície e da pequena dimensão do espaço onde vivia, mandava beijos e esticava seu longo braço pelas grades para cumprimentar as pessoas e algumas vezes tentava puxá-las na sua direção. Gestos mecânicos aprendidos a duras custas em um circo que fora criada e explorada, e posteriormente abandonada por não ter mais serventia.
Já a pantera sequer se mexia, da sua jaula minúscula vinha um cheiro fétido e era completamente escura. O seu olhar, se é que podemos chamar aquilo de olhar, era de partir qualquer coração, mesmo os mais endurecidos. Era como se ela estivesse realmente morta, só esperando o seu corpo desistir. Um dos tratadores falou que ela estava triste aquele dia porque não tinha sol, ou algo do gênero.
Passei a visitar quase todos os dias o zoo, antes ou depois da escola, pois ficava a 100 metros dali, só faltava quando ficava doente. Bastaram algumas semanas, e comecei a observar alguns comportamentos compulsivos em Margarida, como ficar se balançando por horas no mesmo ritmo ou roer as pontas dos dedos, e a “tristeza” daquela pantera jamais foi embora.

Sonhando com uma nova vida!
E eu ficava por horas contemplando a beleza imóvel daquela enorme criatura. Diversas vezes tive vontade de entrar e abraçá-la, para mostrar que ainda alguém se importava com ela, mas sabia que poderia não sair dali viva. No entanto, em pensamento, já tinha abraçado e feito muito carinho naquele manto preto.
Indagando alguns funcionários do lugar, descobri que ela não tinha um nome, e então a batizei de Escuridão. Ao ver minha admiração e amor pelo grande felino, o tratador deixava que eu a alimentasse todos os dias, obviamente em segredo. A primeira vez que consegui tocar sua cabeça quase entrei em êxtase, mas logo fui repreendida para jamais voltar a fazer aquilo novamente, pois poderia perder minha mão ou coisa pior.
E durante todo aquele ano letivo, no meu tempo livre, estava dentro do zoo, todos sabiam onde me encontrar e eu já era conhecida dentro do parque.
Então chegaram as férias de final de ano, e era a primeira vez que eu lamentava ter que vir para o litoral de Santa Catarina. Antes de viajar fui ao zoo me despedir, e pedi que cuidassem bem das minhas preferidas. Parti com lágrimas nos olhos, como se realmente estivesse deixando parte do meu coração ali. Confesso que foi o único período de descanso que queria que acabasse logo.
De tanto insistir, consegui abreviar meu tempo de férias na praia, e assim que voltamos fui correndo para o zoológico.
Assim que passei pelos portões já comecei a chamar pela Margarida – que a essa altura, depois de meses de convivência, começava a gritar quando ouvia minha voz -, mas o silêncio prevaleceu.
Quando parei em frente às grades não a encontrei, minhas pernas ficaram bambas. Consegui dar uns passos e ir até um funcionário que estava por ali, e ouvi algo terrível: Margarida havia parado de comer, adoecido e após 15 dias, não resistiu e faleceu. Aquilo foi como um tiro certeiro no peito. Reuni forças para ir ao encontro da minha outra grande preferida: Escuridão!
Até já podia vê-la andando de um lado para outro, olhando fixamente para a portinhola onde eu sempre colocava sua comida (e teimava em tirar uma casquinha fazendo carinho na sua cabeça). Mas, ao chegar, novamente levei outro tiro: a jaula estava vazia!
O tratador veio cabisbaixo me falar que ela também havia parado de se alimentar e que a tinham levado para outra cidade para tratá-la. Uma parte do meu coração morreu e foi enterrado naquele dia, junto com a esperança de revê-las.
Dias depois vi no jornal da TV, uma manchete que dizia: ‘Pantera vai ao dentista’.
Era ela! Escuridão foi submetida a alguns tratamentos de canal, pois seus dentes estavam com problemas, consequência dos maus-tratos sofridos.
A última notícia que recebi dela, foi que estava se recuperando e que seria transferida para outro zoológico na esperança de reprodução da espécie.
Claro, agora tudo faz sentido. Eu realmente entendo porque nunca tinham me contado da existência e não queriam me levar nesse lugar, só um sádico gosta de zoológico!
É um museu a céu aberto, onde aqueles bichos ficam como obras vivas a espera dos humanos egocêntricos fazer-lhes uma visita.
Amar e respeitar é confinar animais selvagens em um ambiente inapropriado, completamente artificial e isolar da convivência com outros da sua espécie e do contato com a natureza?
E mesmo os nascidos em cativeiro, se adequadamente soltos no seu habitat natural, mostram o quão perfeita é a natureza em prover a subsistência, sem a necessidade de qualquer intervenção humana. Aliás, quando o homem resolve interferir, os desastres acontecem.
Dinheiro nenhum no mundo compra o meu direito de ir e vir, de conviver com os meus, de fazer o quiser, do jeito que bem entender, de decidir sobre meu futuro, de escolher meu parceiro e com quem quero perpetuar a minha espécie. Eu nasci livre e quero morrer assim.
Nem que me fosse ofertado o melhor tratamento do universo faria com que eu desistisse deste pensamento.
Que preço tem a sua liberdade?
Então, antes de ir a um zoológico, lembre-se que você está financiando e incentivando que mais “Margaridas” e “Escuridões” sejam exploradas, confinadas e morram sem jamais ter experimentado realmente o que lhes foi ofertado quando nasceram: a VIDA.
Porque dizer que animais em zoológicos vivem é contradizer todo o sentido da criação.


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Eu lembrei de quando era criança, tinha um zoo na minha cidade natal. Era um bem fajutinho, tinha pouco espaço. Mas eu lembrei principalmente dos leões, nem sei ao certo quantos tinha por lá. E o que me incomodava era exatamente ver animais tão majestosos trancafiados em jaulas minúsculas. Na época, nem se falava em proteção animal, mas o olhar perdido e o mau cheiro nas jaulas, isso nunca vou esquecer.
No zoo do Rio, eu vejo que se trata na verdade de um depósito de animais. Eu fico triste. O cuidar envolve reproduzir o ambiente natural. O urso em buraco com água, uma pedra grande onde o mesmo escorava-se e era nítido a tristeza daquele animal. não tinha nada pra ele fazer.Tronco de árvores, simulação de frestas onde o mesmo pudesse tirar insetos, e ele ficava ali preso em um ambiente que não reproduz o seu.
Confesso que chorei com a história em particular da Margarida e da Escuridão. Não vou a zoológicos e acho abominável, parece uma vitrine, onde os pobrezinhos estão ali sem ter pedido, com um monte de gente estranha olhando pra eles como se fossem bichos de pelúcia. É uma crueldade sem tamanho tirar esses animais lindos da natureza e levar eles pra uma ‘casinha de bonecas’.