Quem salvou quem? A história de um resgate nem sempre começa quando nos encontramos…
Por Viviane Cerioli
13 de maio de 2007. A chuva insistia em continuar, e voltando de mais um dia de aula, decidi aproveitar que estava molhada mesmo, para ir a uma loja no caminho de casa. Estacionei minha moto e segui a pé até meu destino. Na volta, na caçamba de lixo de um grande supermercado, um saco preto me chamou a atenção em meio a tantos verdes padronizados do estabelecimento. Juro que não sei qual foi a real motivação que me fez ir até lá e ver o que tinha dentro. Dois olhos pretos se mexeram na minha direção, e só. A cachorrinha que se encontrava ali dentro não tinha forças para sequer levantar a cabeça, que dirá rasgar o plástico e se livrar da sua sentença de morte. Sempre fui muito sensível aos animais, mas jamais tinha me deparado com uma situação como essa, pois a vida dela dependia da minha ação. Sem saber direito o que fazer, tirei-a rapidamente de lá, e corri para o estacionamento subterrâneo do supermercado. Mas, e agora? Como é que vou levar esse bicho pra casa? Minha mãe vai me matar! Centenas de pensamentos rodopiaram dentro da minha cabeça.
Então, no meio daquela loucura toda, veio uma luz: vou ligar para a veterinária dos meus animais! E ligar como? se nem telefone eu tinha comigo. Larguei a cachorrinha ali, e subi correndo na recepção e pedi ajuda. Vitória! A Doutora estava a caminho! Aqueles minutos de espera pareceram horas!!!!
Várias pessoas vieram ver o que eu estava segurando no colo, e juro que me segurei para não matar alguém de tanta sandice que tive que escutar. A palavra “ser humano” mudou completamente de significado naquele instante.
Pude sentir na pele o que aquela cachorrinha passou; desprezo e asco era pouco para descrever os olhares que recebíamos. Quando a veterinária finalmente chegou e de pronto verificou seu estado grave de saúde , foi-se embora o mais rápido que pode com a sua mais nova paciente para a clínica. E eu, ainda chocada e com as pernas bambas, ensaiando alguns passos na direção da minha moto, pude ver de longe um pedaço de papel pendurado no retrovisor. Alguém tinha me escrito um bilhete, e ele dizia assim: “Anjo, parabéns pelo seu ato, são esses atos que enobrecem a alma da pessoa.”. Enquanto guardava-o na mochila, e o tenho guardado comigo até hoje, é que caiu a ficha: Era meu primeiro resgate!
Mal posso descrever o que senti naquele instante, mas só de lembrar meus olhos ficam marejados. Depois de um tempo, consegui chegar à clínica, e a Preta já estava recebendo os primeiros cuidados, bem como um soro intravenoso preparado com vitaminas e medicamentos. Batizei-a carinhosamente assim, pois essa era a cor dos únicos tufos de pelo que ainda lhe restavam. Além dos 4 tumores de mamas super evidentes – um chegava ao tamanho de um kiwi -, ela tinha um tumor de sticker* dependurado na vagina, de mais ou menos uns 10 cm. No ultrassom, o tamanho anormal do seu útero indicava uma infecção e no Raio X mostrava várias fraturas nas últimas vértebras da coluna e uma trinca na bacia, revelando então o porque dela não conseguir caminhar. Preta apresentava ainda infecção nos ouvidos, fungo e sarna, sem falar na grave desnutrição. Os olhos que estavam opacos e azulados e a falta dos dentes evidenciaram a sua idade avançada, e também o provável motivo do seu abandono: Velhice. Foram quase 2 horas de cirurgia, e a Preta resistiu bravamente!
Na sala de espera, fazia os cálculos de toda economia que eu teria que fazer para pagar a conta, e eu sei que não sairia barato. Tive até que vender umas coisas e pedir emprestado para cobrir todas as despesas.
Somente depois de 23 dias, quando eu estava entrando na sala onde ela estava, foi que Preta, pela primeira vez, abanou o rabo quando me viu! Senti um gosto salgado na boca, mal percebi que as lágrimas caíram. Preta permaneceu internada por 47 dias até que todos os seus cortes estivessem cicatrizados e seu pelo recuperado, mas ainda ficava a dúvida se ela voltaria a andar. E durante esse período eu quase morei dentro da clínica. A pior parte estava por vir: o que fazer com esse animalzinho agora? Quem é que adotaria uma cachorra velha e deficiente? A veterinária que tratou e cuidou dela não me deixava desistir e sempre me incentivava a continuar lutando pela recuperação dos movimentos, e no 49° dia ela firmou uma das patas traseiras. Foi uma festa!
Jamais imaginei que um ato tão simples, como o de caminhar, pudesse gerar um sentimento tão forte dentro de mim. E foi em meio à comemoração que Preta, com o olhos fixos em mim, deu seus primeiros passos e veio em minha direção, precisamente de encontro a minha mão e lambeu. Naquele instante, eu soube que meu coração pertencia a ela e o dela pertencia a mim. Para sempre.
Clique para ver os vídeos da Preta caminhando e com a sua família canina :
No começo, eu achava que estava apenas cuidando dos cães, mas não demorou muito para que eu percebesse que os cães estavam cuidando de mim também. ” Nancy Johnson
*É uma neoplasia (câncer) que normalmente ocorre em cães adultos. Muito comum em países de clima tropical e subtropical como o Brasil. Na maioria dos casos é transmitido via contato sexual (cruzamento). Outras formas de transmissão são relativas ao comportamento social dos cães como, farejar e lamber a área genital e até mesmo por ferimentos causados por mordidas. A transmissão é feita na forma de transplante das células neoplásicas (cancerosas) do animal doente para o são. Fonte: Webanimal.









Os bichanos eram considerados, até recentemente, animais que tanto podiam dar-se bem dentro quanto fora da casa de seus tutores, e muitos acreditavam que seu ambiente ideal fosse ao ar livre. Esse conceito mudou. Hoje em dia, os especialistas no assunto aconselham os proprietários a manter seus modelos exclusivamente dentro de casa.














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