Um Potrilho e Seu Menino
Em homenagem à semana das crianças, a OBA traz para você um pequeno conto para lembrar a todos nós da criança que ainda vive por trás desses olhos endurecidos de adulto.
Um Potrilho e Seu Menino
- Trovão, Trovão! Cheguei, Trovão!
O potrilho já esperava com a cabeça enfiada pra fora da cerca. A voz do menino fez suas orelhas virarem para frente. Soltou relinchos curtos e seguidos. Dizia que estava ali esperando.
O menino beijou-lhe o focinho e bagunçou seu topete.
- Sentiu saudades, Trovão?
O potrilho soltou ar de leve com o nariz. Sim, é claro, sempre sentia.
Faziam assim todos os dias. Já aprendera os horários do menino: quando saía de mochila e cadernos haveria de voltar com o sol alto no céu, quando saía ajeitado para a missa voltava na hora de regar a horta. Era sempre assim e o potrilho sabia. Sabia e esperava.
Eram melhores amigos. Brincavam a tarde toda, confiavam-se segredos, cochilavam juntos na relva, dividiam a sobremesa. O potrilho guardava um bocado de aveia, o menino vivia a surrupiar maçã caramelada da cozinha. Não que apreciassem a comida esquisita um do outro, gostavam mesmo era da cumplicidade, da parceria.
Eram cheios de energia para gastar, podiam dar 78 voltas no pasto sem cansar. Brincavam de esconder. Perseguiam pássaros. Combatiam piratas.
- Ah, Trovão, Trovão… Papai me bateu de novo, Trovão… – as lágrimas mancharam d´água os pêlos macios – Tirei nota baixa de novo! De novo! Mas eu estudei, lembra? Estudei aqui contigo, estudamos tanto… Ah, Trovão, vamos fugir daqui! Ir para bem além das nuvens… vamos, Trovão?!
O potrilho se remoía de compaixão. Aproximava o focinho quente de suas bochechas para tentar secar as lágrimas.
- Credo! Bafo de capim!
O potrilho espirrava com o nariz e disparava para brincar. O menino largava atrás, se encontravam, embolavam e saíam rolando na grama. Paravam exaustos com as barrigas subindo e descendo ao sol.
Muitos sóis e muitas luas compartilharam. Quase enfartaram uma porção de pássaros e mataram todos os piratas. O pasto era deles, divididiam o reinado de igual para igual.
Vento vai…
Vento vem…
O menino cresceu.
De repente, um skate todo pichado e as colegas de fita no cabelo eram mais interessantes que um cavalo de fazenda.
Começou a esquecer a maçã, nem notava mais um punhado de aveia esperando no canto do cocho.
O potrilho ainda esperava pontualmente nos dias de aula, com o sol alto no céu, cabeça enfiada na cerca. Se desse sorte subia a lua o menino vinha tratar-lhe. Ficava todo contente, batia os cascos no chão de ansiedade, num sapateado alegre.
A água enchia o balde. Soprava com o nariz, implorando para darem 78 voltas no pasto. O menino virava as costas.
- Hoje não dá, Trovão.
Baixava a cabeça. A água parecia perder o frescor. A grama nem era mais verde, as estrelas caíam do céu e deixavam-no sozinho no breu.
O menino virou homem. Foi estudar para ser doutor. A despedida foi um toque no topete do potrilho. Um único toque. O animalzinho sentiu um calor correr-lhe o corpo. Que delícia, que delícia estar junto do menino! Durou exatamente nove segundos e ele se foi, sem olhar para trás, sem nenhuma palavra amiga, sem dizer se um dia voltaria. O potrilho ainda revivia mentalmente aqueles nove segundos tempos depois.
Quem assumiu o trato foi um cocheiro qualquer. Virou bicho de aluguel. Qualquer um que pudesse pagar se via no direito de espancar-lhe até abrir o couro. Vivia de barrigueira apertada, freio socando o céu da boca. O casco sempre sujo, mal ferrado.
Sozinho, com as pernas doídas à noite, se perdia no brilho da lua. Pensava no menino, seu cúmplice, seu parceiro.
Às vezes, se pegava farejando o ar, procurando o cheiro de seu amigo. Estreitava os olhos cansados buscando o ônibus da escola. Passou tanto tempo esperando na dor e solidão que começou a ouvir sua voz com o vento.
- Vou vender tudo. Não me tem utilidade.
Esticou as orelhas, mexeu as narinas. Dessa vez era real! Seu menino! Seu menino voltara! Sapateou e relinchou como na época de criança. Não fosse a idade teria pulado a cerca de encontro ao menino, iria abraçar-lhe e lamber e assoprar o nariz. Relinchou forte mais uma vez.
O menino agora era homem formado. Cheirava estranho e vestia roupas desconfortáveis. Mas era ele, finalmente ele! E se aproximava. O potrilho tremia todo de emoção.
Então ele ouviu, ao longe, baixo como um sussuro:
- Trovão, Trovão! Cheguei, Trovão!
Arrepiou-se, sentiu marejar o olhar, ergueu a cabeça, encheu os pulmões e relinchou com toda a força, repetidas vezes, dizia que estava ali esperando. Há anos esperando com a cabeça na cerca.
Não houve resposta. A criança que gritava estava longe, longe demais por trás daquele olhar endurecido de gente grande.
Os lábios se abriram mostrando dentes brancos, sentiu uma pontada de esperança queimar por dentro.
- Vixi, manda esse que tá gritando pra faca. Tá doente… até deixou aveia no cocho.
As forças lhe abandonaram. Caiu com um baque surdo e não levantou mais. Morreram ali um potrilho e seu menino.
- Ah, Trovão, vamos fugir daqui! Ir para bem além das nuvens… vamos, Trovão?

Os olhinhos atentos pareciam duas azeitonas brilhantes, não perdiam nenhum par de pernas. O focinho molhado se dobrava para cima e para baixo como se tivesse vida própria, cheirava todos os perfumes da vida urbana, procurando um que fosse especial, procurando alguém que lhe abaixasse a mão para um afago. Estava nessa vida há anos. Sempre procurando.


Cheio de mim, assoprei as dez velinhas com tanta força que pensei que fosse desmaiar.
Apaguei-as num sopro só, mas meu orgulho não era pela idade, e sim pelo presente: depois de
muito insistir, convenci meus pais a adotarem um cachorrinho.
Apesar dos animais de pêlo sedoso e porte perfeito, escolhi o mais gordinho que encontrei.
Faltava-lhe uma orelha e ele era manco de uma patinha, mas para mim, por trás daqueles
olhinhos brilhantes, estava a criatura mais bela de todas. Ficamos brincando de pega-pega
enquanto meus pais assinavam os papeis, eu era bem mais rápido que meu novo amigo, só
que às vezes disfarçava para ele poder me alcançar e ficar contente.
Meus pais e a moça do abrigo levantaram da mesa e meu coração estava aos pulos. Eu
finalmente tinha um cachorrinho, meu cachorrinho! Foi nesse momento que a moça entregou-
me a carteira de vacinação e me disse a frase mais marcante daquele aniversário:
- Agora você é papai, cuida bem do seu bebê.
Senti a responsabilidade pesando nas costas. Além de meu parceiro, o Guto (nome que
escolhi) era meu filho, pois dependia de mim como um filho depende. Eu tinha de alimentá-
lo, dar-lhe água, levar para passeios. Tinha de conferir suas vacinas, a limpeza da caminha.
Entendi naquele momento porque meus pais levaram tanto tempo para me deixar ter um
cachorro.
Eu e Guto caminhávamos duas vezes por dia, de tarde jogávamos futebol no quintal de casa
(quebramos ao todo três vasos da minha mãe). Nos dias frios ele se enrolava debaixo da
minha coberta, nos dias quentes dormia do lado da minha cama, num colchãozinho com seu
nome bordado.
Quando ele ficou doente pela primeira vez, adoeci também, de apreensão. Meu filho estava
doente, oras! Nos recuperamos juntos, recebíamos a comida na cama e liam histórias para nós
dormirmos, era tanto conforto que estendemos a doença por mais alguns dias.
Eu saía na rua exibindo o Guto pra todo mundo: “olhem meu cachorrinho, meu filho!”. Continuei
exibindo-o mesmo quando seu pelinhos começaram a ficar brancos, mesmo quando a pata
manca não era mais suficiente para aguentá-lo. Continuei exibindo-o, como um pai orgulhoso,
quando ele estava cego e doente pela idade. Era meu filho, velho ou não, doente ou não. Meu
filho.
Hoje, com três vira-latinhas particularmente felizes dormindo no meu pé, com o meu próprio
cabelo já branco e meus próprios ossos falhando, recebo duas ligações: a primeira de minha
filha, arquiteta, 48 anos; a segunda, meu filho, roteirista de cinema, 42 anos. Eles querem me
desejar feliz dia dos pais. Mal sabem que fui pai muito antes de vê-los na maternidade, mal
sabem que antes de amá-los, amei como amo a própria vida um cachorro gordinho manco de
uma orelha só, meu primeiro filho. Aquele cuja foto ao lado de um garotinho banguela está
sempre comigo, no plástico da carteira.
Para você que também é pai de um peludo de quatro patas, parabéns pelo seu dia!
Para você que não é, meus pêsames, sua felicidade não é completa… ainda.

Fonte: 


Sou uma vida, um ser, que algum dia encantou você, me desejou, muito me quis. Eu te deixava alegre; feliz! Trouxe-me para seu lar; ensinou-me a te amar. Passei então de ti depender. Novos hábitos passei a ter vivia para te defender. Brincávamos, passeávamos, Dizia que era seu amigo do peito! Tinha por você um profundo respeito. Você era meu dono, meu líder! Esqueci minha natureza; troquei minha matilha pela sua família.

![campanha_busdoor_Romario&Ivy [800x600] campanha_busdoor_Romario&Ivy [800x600]](http://www.obafloripa.org/blog/wp-content/uploads/2012/04/campanha_busdoor_RomarioIvy-800x6001-300x143.jpg)












Comentários Recentes