Arquivo

Arquivo da Categoria ‘Crônicas, Contos, Poemas’

Um Potrilho e Seu Menino

15, outubro, 2010

Em homenagem à semana das crianças, a OBA traz para você um pequeno conto para lembrar a todos nós da criança que ainda vive por trás desses olhos endurecidos de adulto.

Um Potrilho e Seu Menino

- Trovão, Trovão! Cheguei, Trovão!

O potrilho já esperava com a cabeça enfiada pra fora da cerca. A voz do menino fez suas orelhas virarem para frente. Soltou relinchos curtos e seguidos. Dizia que estava ali esperando.

O menino beijou-lhe o focinho e bagunçou seu topete.

- Sentiu saudades, Trovão?

O potrilho soltou ar de leve com o nariz. Sim, é claro, sempre sentia.

Faziam assim todos os dias. Já aprendera os horários do menino: quando saía de mochila e cadernos haveria de voltar com o sol alto no céu, quando saía ajeitado para a missa voltava na hora de regar a horta. Era sempre assim e o potrilho sabia. Sabia e esperava.

Eram melhores amigos. Brincavam a tarde toda, confiavam-se segredos, cochilavam juntos na relva, dividiam a sobremesa. O potrilho guardava um bocado de aveia, o menino vivia a surrupiar maçã caramelada da cozinha. Não que apreciassem a comida esquisita um do outro, gostavam mesmo era da cumplicidade, da parceria.

Eram cheios de energia para gastar, podiam dar 78 voltas no pasto sem cansar. Brincavam de esconder. Perseguiam pássaros. Combatiam piratas.

- Ah, Trovão, Trovão… Papai me bateu de novo, Trovão… – as lágrimas mancharam d´água os pêlos macios – Tirei nota baixa de novo! De novo! Mas eu estudei, lembra? Estudei aqui contigo, estudamos tanto… Ah, Trovão, vamos fugir daqui! Ir para bem além das nuvens… vamos, Trovão?!

O potrilho se remoía de compaixão. Aproximava o focinho quente de suas bochechas para tentar secar as lágrimas.

- Credo! Bafo de capim!

O potrilho espirrava com o nariz e disparava para brincar. O menino largava atrás, se encontravam, embolavam e saíam rolando na grama. Paravam exaustos com as barrigas subindo e descendo ao sol.

Muitos sóis e muitas luas compartilharam. Quase enfartaram uma porção de pássaros e mataram todos os piratas. O pasto era deles, divididiam o reinado de igual para igual.

Vento vai…

Vento vem…

O menino cresceu.

De repente, um skate todo pichado e as colegas de fita no cabelo eram mais interessantes que um cavalo de fazenda.

Começou a esquecer a maçã, nem notava mais um punhado de aveia esperando no canto do cocho.

O potrilho ainda esperava pontualmente nos dias de aula, com o sol alto no céu, cabeça enfiada na cerca. Se desse sorte subia a lua o menino vinha tratar-lhe. Ficava todo contente, batia os cascos no chão de ansiedade, num sapateado alegre.

A água enchia o balde. Soprava com o nariz, implorando para darem 78 voltas no pasto. O menino virava as costas.

- Hoje não dá, Trovão.

Baixava a cabeça. A água parecia perder o frescor. A grama nem era mais verde, as estrelas caíam do céu e deixavam-no sozinho no breu.

O menino virou homem. Foi estudar para ser doutor. A despedida foi um toque no topete do potrilho. Um único toque. O animalzinho sentiu um calor correr-lhe o corpo. Que delícia, que delícia estar junto do menino! Durou exatamente nove segundos e ele se foi, sem olhar para trás, sem nenhuma palavra amiga, sem dizer se um dia voltaria. O potrilho ainda revivia mentalmente aqueles nove segundos tempos depois.

Quem assumiu o trato foi um cocheiro qualquer. Virou bicho de aluguel. Qualquer um que pudesse pagar se via no direito de espancar-lhe até abrir o couro. Vivia de barrigueira apertada, freio socando o céu da boca. O casco sempre sujo, mal ferrado.

Sozinho, com as pernas doídas à noite, se perdia no brilho da lua. Pensava no menino, seu cúmplice, seu parceiro.

Às vezes, se pegava farejando o ar, procurando o cheiro de seu amigo. Estreitava os olhos cansados buscando o ônibus da escola. Passou tanto tempo esperando na dor e solidão que começou a ouvir sua voz com o vento.

- Vou vender tudo. Não me tem utilidade.

Esticou as orelhas, mexeu as narinas. Dessa vez era real! Seu menino! Seu menino voltara! Sapateou e relinchou como na época de criança. Não fosse a idade teria pulado a cerca de encontro ao menino, iria abraçar-lhe e lamber e assoprar o nariz. Relinchou forte mais uma vez.

O menino agora era homem formado. Cheirava estranho e vestia roupas desconfortáveis. Mas era ele, finalmente ele! E se aproximava. O potrilho tremia todo de emoção.

Então ele ouviu, ao longe, baixo como um sussuro:

- Trovão, Trovão! Cheguei, Trovão!

Arrepiou-se, sentiu marejar o olhar, ergueu a cabeça, encheu os pulmões e relinchou com toda a força, repetidas vezes, dizia que estava ali esperando. Há anos esperando com a cabeça na cerca.

Não houve resposta. A criança que gritava estava longe, longe demais por trás daquele olhar endurecido de gente grande.

Os lábios se abriram mostrando dentes brancos, sentiu uma pontada de esperança queimar por dentro.

- Vixi, manda esse que tá gritando pra faca. Tá doente… até deixou aveia no cocho.

As forças lhe abandonaram. Caiu com um baque surdo e não levantou mais. Morreram ali um potrilho e seu menino.

- Ah, Trovão, vamos fugir daqui! Ir para bem além das nuvens… vamos, Trovão?

cavalo e menino3 - Cópia

Crônicas, Contos, Poemas

Olhinhos de azeitona

22, setembro, 2010
DSC05559
Os olhinhos atentos pareciam duas azeitonas brilhantes, não perdiam nenhum par de pernas. O focinho molhado se dobrava para cima e para baixo como se tivesse vida própria, cheirava todos os perfumes da vida urbana, procurando um que fosse especial, procurando alguém que lhe abaixasse a mão para um afago. Estava nessa vida há anos. Sempre procurando.

Uma criança passa e aponta para ele com um sorriso no rosto. Contente como um filhote, abana o rabinho e se aproxima saltitando. A mãe afasta a criança e lhe solta um palavrão.

Uma idosa vê a cena e se compadece, coça a cabecinha peluda com dedos ossudos. Ele se reanima, tenta lamber os tais dedos, que se afastam num ápice, com medo. A senhora ainda tenta lhe oferecer um biscoito integral, mas para ele aquelas mãos perderam todo o encanto.

Caminha cabisbaixo, um herói derrotado, um andarilho cansado de desventuras. Dorme ao relento, encolhido com o rabinho enrolado no corpo para se aquecer. Acorda com o barulho de papel alumínio do sanduíche de um mendigo. Ganha metade sem nem implorar.

Faminto, sem comer por uma eternidade, larga o sanduíche e pula no colo do maltrapilho. Encontrara, encontrara um amigo! Finalmente! Finalmente… é empurrado delicadamente. O suposto amigo sussurra-lhe algo, percebe-se seu semblante sofrido.

Ele volta para o sanduíche, aprendera a muito que para não morrer de fome precisa agarrar todas as oportunidades. Seguiu o mendigo por um tempo. Eram dois solitários, cada um no seu canto. Amanheceu sem a companhia do humano certo dia, decidiu tomar outro rumo e continuou a busca de longa data.

Ajeitou os pelinhos, lambeu o bigode para penteá-lo. Ergueu a cabeça apesar da falta de vontade, preparou os olhinhos de azeitona e pôs o focinho na ativa. Levou pontapés e chutes, xingamentos cruéis. Mas não desistiu, um dia haveria de achar um amigo.

E um dia achou. Alguém lhe estendeu a mão e não puxou de volta. Sem asco, sem medo, a moça envolveu-o nos braços e falou mansamente. Para ele, aquela era a pessoa mais importante do mundo, a que dava sentido a toda sua vida. Seu perfume era o melhor de todos, seus cabelos emaranhados os mais perfeitos. Sentiu o calor daqueles braços queridos, sentiu-se amado, feliz pela primeira vez na vida, mas, acima de tudo, aliviado. Deitou a cabeça em seu ombro e descansou da busca. Agora, finalmente terminada.

IMG_6896
Benji, nosso patudinho peludo que também vivia a pentear o bigode. Seus olhinhos de azeitona cativaram um coração sortudo, e hoje ele tem uma família cheia de amor. Que tal dar aos outros Benjis a oportunidade de descansar de uma busca solitária? Que o próximo ombro a amparar a cabecinha aliviada de um bichinho carente seja o seu!

Adote!, Crônicas, Contos, Poemas

A ti prometo…

13, agosto, 2010
Olá, família!
Venho aqui oferecer-lhes minha humilde companhia.
Sei sentar, sei deitar, sei brincar de bolinha.
Adoro passear e adoro cócegas na barriga.
Prometo me esforçar para fazer xixi no jornal e não derrubar ração para fora do pratinho.
Prometo estar disponível 24 horas por dia.
A ti, pai, prometo ser o amigo que respeita e admira, ficar aos teus pés.
A ti, mãe, prometo ser os ouvidos fieis que deitarão no teu colo e ouvirão tuas lamúrias depois de um dia cansativo.
A ti, filho, prometo ser o companheiro de bola, de corridas e brincadeiras.
A ti, filha, prometo ser o alicerce que lamberá tuas mãos quando o mundo te virar as costas.
Mas, acima de tudo, a todos vocês, prometo meu mais sincero amor – para sempre, sempre…
Esperançosamente aguardando,
Seu amigo abandonado

***

Vamos ajudar as estrelas da Cão Terapia a encontrar uma família especial?

banner_adocao_meninas-leve

banner_adocao_meninos-leve

Adote!, Crônicas, Contos, Poemas, Cão Terapia

Agora você é papai

9, agosto, 2010
boy-rottweiler (2)
Cheio de mim, assoprei as dez velinhas com tanta força que pensei que fosse desmaiar.
Apaguei-as num sopro só, mas meu orgulho não era pela idade, e sim pelo presente: depois de
muito insistir, convenci meus pais a adotarem um cachorrinho.
Apesar dos animais de pêlo sedoso e porte perfeito, escolhi o mais gordinho que encontrei.
Faltava-lhe uma orelha e ele era manco de uma patinha, mas para mim, por trás daqueles
olhinhos brilhantes, estava a criatura mais bela de todas. Ficamos brincando de pega-pega
enquanto meus pais assinavam os papeis, eu era bem mais rápido que meu novo amigo, só
que às vezes disfarçava para ele poder me alcançar e ficar contente.
Meus pais e a moça do abrigo levantaram da mesa e meu coração estava aos pulos. Eu
finalmente tinha um cachorrinho, meu cachorrinho! Foi nesse momento que a moça entregou-
me a carteira de vacinação e me disse a frase mais marcante daquele aniversário:
- Agora você é papai, cuida bem do seu bebê.
Senti a responsabilidade pesando nas costas. Além de meu parceiro, o Guto (nome que
escolhi) era meu filho, pois dependia de mim como um filho depende. Eu tinha de alimentá-
lo, dar-lhe água, levar para passeios. Tinha de conferir suas vacinas, a limpeza da caminha.
Entendi naquele momento porque meus pais levaram tanto tempo para me deixar ter um
cachorro.
Eu e Guto caminhávamos duas vezes por dia, de tarde jogávamos futebol no quintal de casa
(quebramos ao todo três vasos da minha mãe). Nos dias frios ele se enrolava debaixo da
minha coberta, nos dias quentes dormia do lado da minha cama, num colchãozinho com seu
nome bordado.
Quando ele ficou doente pela primeira vez, adoeci também, de apreensão. Meu filho estava
doente, oras! Nos recuperamos juntos, recebíamos a comida na cama e liam histórias para nós
dormirmos, era tanto conforto que estendemos a doença por mais alguns dias.
Eu saía na rua exibindo o Guto pra todo mundo: “olhem meu cachorrinho, meu filho!”. Continuei
exibindo-o mesmo quando seu pelinhos começaram a ficar brancos, mesmo quando a pata
manca não era mais suficiente para aguentá-lo. Continuei exibindo-o, como um pai orgulhoso,
quando ele estava cego e doente pela idade. Era meu filho, velho ou não, doente ou não. Meu
filho.
Hoje, com três vira-latinhas particularmente felizes dormindo no meu pé, com o meu próprio
cabelo já branco e meus próprios ossos falhando, recebo duas ligações: a primeira de minha
filha, arquiteta, 48 anos; a segunda, meu filho, roteirista de cinema, 42 anos. Eles querem me
desejar feliz dia dos pais. Mal sabem que fui pai muito antes de vê-los na maternidade, mal
sabem que antes de amá-los, amei como amo a própria vida um cachorro gordinho manco de
uma orelha só, meu primeiro filho. Aquele cuja foto ao lado de um garotinho banguela está
sempre comigo, no plástico da carteira.
Para você que também é pai de um peludo de quatro patas, parabéns pelo seu dia!
Para você que não é, meus pêsames, sua felicidade não é completa… ainda.

Crônicas, Contos, Poemas, Homenagem

Carta para minha futura filha

2, agosto, 2010

Heather Leughmyer

Você nunca verá um elefante se apoiando pela cabeça
Mas verá incríveis acrobatas e palhaços em cena

Você nunca verá ovos coloridos para a páscoa ou um Lanche Feliz
Mas acariciará a barriga de porquinhos e saberá fazer a galinha sorrir

O caminhão de sorvetes não será para você uma lembrança mágica
Mas saberá que o sorvete de soja não causou sofrimento ou lágrima

Você ouvirá o gentil gluglu do peru ao afagar suas asas
E agradecerá que ele está vivo no dia de ação de graças

Enquanto outras crianças compram tênis de couro e comem na churrascaria
Você beijará vacas, alimentará ovelhas e comerá soja com alegria

Ser diferente pode ser difícil, eu sei – O mundo pode ser amarga lembrança
E talvez você seja debochada pelas outras crianças

Mas compaixão é um dom que poucos compartilham
E ao contrário da mamãe, seu coração será sempre tranquilo

Então, nunca sinta-se envergonhada por se importar
Pois terá beleza e empatia difíceis de se achar

E quando ver um carneirinho resgatado e em sua lã tocar
Não sentirá tristeza ou remorso, mas uma paz no ar

O que demorou muito para eu aprender, ensinarei desde quando você nascer
E sua pegada na Terra será a de um pequeno e lindo ser

menina e vaca

Fonte: Vista-se!

Crônicas, Contos, Poemas, Reflita!

SABE… EU ADORO ANIMAIS

12, junho, 2010

Desde criança sempre gostei de animais, queria fazer veterinária, mas por imposição de meus pais, segui outra carreira.

Quando vejo algum na rua com sarna, atropelado, debilitado, viro o rosto para não ver, quando dá, mudo de calçada, tenho muita dó… não gosto nem de olhar.

Quando escuto meu vizinho batendo no seu cão, tampo meus ouvidos para não ouvir.

Não passo em frente à casa ao lado da minha, pois lá tem um cãozinho amarrado em uma corrente muito curta, sem água e sem comida, ele está muito magro, dá pena de ver.

Não alimento os bichinhos da minha rua, porque tenho muita dó, não gosto nem de chegar perto.

Quando minha cachorra deu cria, para não me apegar nos filhotinhos, peguei eles ainda com os olhinhos fechados, arrumei direitinho dentro de uma caixa de papelão e deixei em frente a um Pet Shop, tenho dó de deixar na rua. SABE… EU ADORO ANIMAIS. Uma vez quando eu morava numa casa com quintal, tinha um cão de porte médio, ele era muito inteligente, ia me esperar no portão todos os dias, era meu amigão, mas daí tive que me mudar para um apto e não pude levá-lo, então com muita dó, mandei para a protetora dos animais. Sabe que nunca mais tive noticias dele?!!!, Mas era meu companheirão… Há!! SABE… EU ADORO ANIMAIS.

Tive uma vez também um cachorrinho, muito alegre, muito brincalhão que gostava de dar umas voltinhas na rua, depois de dois dias, percebi que ele não voltou, então meu vizinho disse que a carrocinha o tinha levado, NOSSA!! Fiquei com um aperto no coração, SABE… EU ADORO ANIMAIS.

Em um domingo lindo ensolarado, estava indo para uma festa, quando quase tropecei em um cachorrinho atropelado, você não vai acreditar!! Sabe o que fiz?? Liguei para a protetora dos animais, ela prontamente me pediu o endereço para poder buscá-lo, minha consciência não ia ficar tranquila sabendo que o animalzinho estava agonizando ali na calçada fria e suja. Não ia conseguir me divertir.

Mais tarde liguei para saber se ela tinha ido buscar, ela me disse que estava com ele em um hospital veterinário e que ia se salvar, ela disse também que estava deixando lá vários cheques pré-datados, coitada!! Fiquei com dó dela.

Depois disto TUDO que fiz, consegui me divertir na festa e o cãozinho se salvou, TUDO!!! graças a minha ligação. SABE… EU ADORO ANIMAIS.

Autora: Arlete D. Martinez

Crônicas, Contos, Poemas, Reflita!

Crônica muito legal!

4, maio, 2010

Pirata

10, abril, 2010

O Pirata é um dos cães mais carentes atendido pelo Mutirão Mata-fome. Ele foi internado no ano passado e estava melhorando, porém, na última visita, tivemos um choque: o coitadinho estava magro, faminto e sequer abria os olhos. Vai aqui um conto como imagino que ele mesmo escreveria se tivesse mãos…

***

Sabe, às vezes você odeia o lugar onde mora, e odeia as pessoas que moram com você. Às vezes tudo o que você mais queria era sair dali e encontrar aquilo que chamam de lar, com gente que te ama e um sofá quentinho pra se aninhar. Esse é meu caso, é isso o que eu mais quero.

Eu fui abandonado na rua quando era bebê, não pude mamar o leite de minha mãe nem brincar com meus irmãos. Eu vivia de lixo em lixo, de porta em porta. Não é fácil ser cachorro, poucos olham pra você de verdade, e mesmo esses fazem uma cara de culpado e viram o rosto.

Eu acabei achando outros amigos patudos numa aldeia indígena. Os humanos ali não nos davam comida, água ou carinho, era a lei do mais forte, mas era isso ou nada. Fiquei lá, na luta.

Depois de um tempo, um grupo de pessoas estranhas começou a visitar o lugar. Estranhas no sentido de únicas, diferentes. Não olhavam para mim como se eu fosse objeto, viam vida atrás dos meus olhos. Mas, puxa, eu estava acostumado a ser objeto. Tive medo.

DSC01475 (Medium)

Acabei cedendo à ração, à água e, principalmente, à atenção que me davam. Únicas, sim. Diferentes, sim. E eram meus amigos, os únicos que tinha. Foram eles que trataram de mim quando fiquei doente. Nem sei o que eu peguei, só sei que minhas patinhas fraquejavam, eu perdi a fome, minha pele doía e coçava, meus pêlos, antes tão macios, acabaram caindo. E meus amigos não abandonaram meu corpo feio, como teriam feito os humanos que moram aqui. Meus amigos me abraçaram e levaram pro médico.

pirata no veterinario

Eu fiquei curado, só que, confesso, depois de muitos comprimidos de gosto ruim. O problema é que dali do médico eu não tinha para onde ir. Conclusão, voltei pra aldeia. A única coisa que eu fazia ali era olhar para estrada esperando meus amigos. Eles vinham toda semana, me faziam festas, brincavam comigo, eu até poderia dizer que viraram cachorro de vez em quando de tão fácil que era me relacionar com eles… Au au!

DSC02706

Uma coisa que eu gostava de fazer durante essas visitas era pular no carro deles, nem que estivesse ligado ainda, nem que estivesse andando. Ah, que delícia estar ali naquele banco molinho que tirou-me do tormento. Que delícia deitar ali, fechar os olhinhos e imaginar que estão me levando de novo pra longe da fome, da sede e do abandono. Gosto de imaginar que eles estão me levando para um lugar que tenha sofá e colo… um lar, meu lar.

pirata adora carro

Porém o carro está parado e do lado de fora só terra, lama e tigelas vazias. Daqui a pouco alguém vem me tirar do banco. Aí eu caio na real. Não existe sofá com espaço para mim. Meu pêlo branco e minhas manchinhas marrons não se comparam aos cabelos dum maltês, e meus ossos salientes não são tão bonitos quantos os músculos de um rotweiller.

Eu continuei na aldeia. E eu fiquei doente de novo. Vi o horror na cara de meus amigos quando olharam pro meu corpo surrado. Devorei a ração que me entregaram, dentro do carro mesmo. E de novo comecei a imaginar coisas… estávamos passando a estrada, as tigelas vazias virando pontinhos lá atrás, eu podia ouvir os outros carros e ver as casas bonitas e os cachorros sortudos… Tudo tão perfeito, tão real.

Aliás…. real até de mais… Que imaginando que nada! Dessa vez eu estava mesmo indo embora! Ah, que alegria! Que sonho! Estava fraquinho, mas encostei a cabeça na perna de um amigo humano e abanei o rabinho para ele, o mais rápido que pude.

Agora estou no veterinário de novo, tomando os comprimidos de gosto ruim. Ele insiste em me picar com vacinas, mas é tão gentil que eu nem ligo para a dor. O chato, o infortúnio, é que logo estarei bom. Meu pêlo vai voltar, minhas raras gordurinhas vão aparecer, vou enxergar tudo nítido de novo e vão me levar de volta para aldeia. Adeus, sofá!

Pensar nisso me dói o coração (sim, eu tenho um coração).

Tenho vontade de ficar doente para sempre para nunca mais ir embora.

Às vezes o que você mais quer é encontrar aquilo que chamam de lar.

Às vezes você passa a vida toda querendo.

***

Nota final: o texto acima foi escrito ontem, 9/4, e hoje fui visitar o Pipi na casa de um voluntário, onde ele está se recuperando. Ele ainda não foi diagnosticado, mas está sendo medicado e alimentado. Semana passada não conseguia nem abrir os olhos (vide fotos), hoje ele conseguiu nos receber com pulinhos e rabo abanando. Comeu um quilo de ração só durante a tarde e bebeu litros de água, como se já não fosse óbvio que passa fome por suas costelas e bacia salientes. Quando chegamos foi logo mostrando sua barraca (armada exclusivamente para acolhê-lo), depois pediu colo, deu beijinhos em todo mundo e, debilitado fisicamente, não aguentou o cansaço e foi dormir, pela primeira vez em um lugar que o ama. Infelizmente, terá de voltar para a aldeia na segunda-feira, mas, Pipi, nós continuaremos te visitando sempre (sempre que nos ajudarem com ração e medicamentos, é claro).

IMG_3631

Crônicas, Contos, Poemas, Mutirão Mata-fome

CARTA DE UM CÃO ABANDONADO, autoria de Claudia Corbal

2, março, 2010

Cute_sad_dog.svg.hiSou uma vida, um ser, que algum dia encantou você, me desejou, muito me quis. Eu te deixava alegre; feliz! Trouxe-me para seu lar; ensinou-me a te amar. Passei então de ti depender. Novos hábitos passei a ter vivia para te defender. Brincávamos, passeávamos, Dizia que era seu amigo do peito! Tinha por você um profundo respeito. Você era meu dono, meu líder! Esqueci minha natureza; troquei minha matilha pela sua família.

Um belo dia conheceu uma moça, por ela se encantou e casou. Senti que ela não gostava de mim, quando você saia ela sempre me batia. Sentia muita dor, mas logo esquecia. Não ligava, pois, o que me importava era que ao seu lado estava. O tempo passou, sua esposa engravidou. Fiquei tão feliz!Vinha uma criança! Eu adorava brincar! Mas minha esperança transformou-se em tristeza e solidão, pois,quando o bebe nasceu, sua esposa me botou pra fora da casa. Tentei entrar me desesperei! Ela novamente me empurrou; deu-me pauladas, me chutou. AÍ você apareceu, fiquei aliviado! Senti que estava protegido. Eu estava salvo! Mas para meu total desespero, você nem saiu do lugar. Ela gritou com você, imediatamente em seu colo me pegou, para dentro de seu carro me levou. Que bom! Por um instante achei que tinha me abandonado… Deu partida no carro , Dirigiu…dirigiu….dirigiu Repentinamente a porta abriu… Você me empurrou para fora, arrancou com o carro, foi embora!!! Meu mundo caiu, não podia acreditar. Corri atrás de você loucamente até minha força esgotar. Só aí percebi que tinha me abandonado. Se não mais me queria, porque não me deu para alguém? Estou cheio de feridas, machucado, com o corpo coberto de carrapatos, em meu rabo estou com bicheira, minha comida consigo nas lixeiras.

Não tenho mais forças para reagir. Até a esperança de um dia você ressurgir. o tempo e minha dor fizeram sumir. Algumas pessoas me dão comida, outras atentam contra minha vida, mas ninguém me quer mais. Estou velho, doente, incapaz. Sinto meu fim, mas pelo menos encontrarei a paz. Antes de partir para minha alma grupo, gostaria de te pedir segredo: Não conte nada para seu filho, ainda te gosto, e tenho muito medo que ele possa copiar sua atitude e um dia quando você ficar velho; debilitado, com pouca saúde, que faça ele faça de minha historia , um exemplo a copiar e a utilize como excelente desculpa para também te abandonar , sem sentir dor ou culpa.

Assinado: seu cão abandonado

Claudia Corbal é escritora. Seu cãozinho Ronda, adotado em junho de 2009, foi sua inspiração para o poema “Carta de um cão abandonado”.


Crônicas, Contos, Poemas

“ARISTOGATOS” – Crônica de Martha Medeiros

23, fevereiro, 2010

x120_Gia

Nunca imaginei ter um bicho de estimação por uma questão de ordem prática: moro em apartamento, sempre morei. E se morasse em casa, escolheria um cachorro. Logo, nunca considerei a hipótese de ter um gato, fosse no térreo ou no décimo andar. Quando me falavam em gato, eu recorria a todos os chavões pra encerrar o assunto: gato é um animal frio, não interage, a troco de quê ter um enfeite de quatro patas circulando pela casa?

Hoje, dona apaixonada de um gato de 5 meses (e morando no décimo andar), já consigo responder essa pergunta pegando emprestada uma frase de um tal Wesley Bates: “Não há necessidade de esculturas numa casa onde vive um gato”. Boa, Wesley, seja você quem for. Gato é a manifestação soberana da elegância, é uma obra de arte em movimento. E se levarmos em consideração que a elegância anda perdendo de 10 x 0 para a vulgaridade, está aí um bom motivo para ter um bichano aninhado entre as almofadas.

Só que encasquetei de buscar argumentos ainda mais conclusivos. Por que, afinal, eu me encantei de tal modo por um felino? Comecei a ler outras frases irônicas e aparentemente pouco elogiosas. Mark Twain disse que gatos são inteligentes: aprendem qualquer crime com facilidade. Francis Galton disse que o gato é antissocial. Rob Kopack disse que se eles pudessem falar, mentiriam para nós. Saki disse que o gato é doméstico só até onde convém aos seus interesses. Estava explicado por que gamei: qual a mulher que não tem uma quedinha por cafajestes?

Ser dona de um cachorro deve ser sensacional. Lealdade, companheirismo, reciprocidade, eu sei, eu sei, eu vi o filme do Marley. Cão é boa gente. Só que o meu cachorro preferido no cinema nunca foi da estirpe de um Marley. Era o Vagabundo, sabe aquele do desenho animado? O que reparte com a Dama um fio de macarrão, ambos mastigam, um de cada lado, e mastigam, mastigam até que (suspiro… a emoção impede que eu continue). Eu trocaria todos os príncipes loiros e bem comportados da Branca de Neve e da Cinderela pelo livre e irreverente Vagabundo, que foi o personagem fetiche da minha infância. E lembrando dele agora, consigo entender a razão: aquele malandro tinha alma de gato.

Imagino que, com essa crônica, eu esteja revelando o lado menos nobre do meu ser. Pareço tão sensata, tão bem resolvida, tão madura – quá! – tenho outra por dentro. Que vergonha. Levei mais de 40 anos para me dar conta de que não faço questão de uma criatura que me siga, que me agrade, que me idolatre, que me atenda imediatamente ao ser chamado, que me convide pra passear com ele todo dia. Sendo charmoso, na dele e possuindo ao menos alguma condescendência comigo, tem jogo.

Cristo, um simples gato me fez descobrir que sou mulher de bandido.

Martha Medeiros

Martha Medeiros é uma jornalista e escritora brasileira. É colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro.

***

Leia também:

Nunca imaginei um dia – Crônica de Martha Medeiros onde conta a adoção de seu gato.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Crônicas, Contos, Poemas